Filme O Segredo - algumas reflexões
"Existe uma relação muito real entre o que você
contribui e aquilo que você recebe neste mundo." Oscar Hammerstein II
Coisa interessante.
Certa pessoa pega uma idéia bastante conhecida das rodas de auto-ajuda, afirma que se trata de uma grande novidade, diz que tal idéia estava guardada a sete chaves desde a antiguidade, pega alguns testemunhos de pessoas comuns que prosperaram usando as técnicas contidas naquela teoria, re-lança este conceito em um produto com o nome x e recebe, em troca, milhões de dólares.
E quase ninguém se dá conta de que não há segredo em O Segredo.
Caro leitor, mesmo sob o risco de levar pedradas dos defensores do filme, gostaria de poder fazer algumas reflexões.
Iniciemos pelas técnicas de marketing utilizadas.
Primeiro: O nome.
Vamos ser honestos - é só alguém pronunciar a palavra segredo que inúmeras pessoas erguem as orelhas, atentas a qualquer movimento labial.
Segredo é algo mágico – trata-se de certo assunto que poucos ou apenas um tem conhecimento e que a partir de um dado momento poderá ser partilhado com a gente.
Rasgando o verbo, direi o seguinte – é fofoca.
E quem não curte uma? A maioria adora.
Aliás, costumo dizer que fofoqueiro é que nem mosca. São em grande número, adoram o lixo alheio, a gente espanta, mas sempre continuam zunindo por aí.
A segunda sacada da obra: Usar o nome de personalidades ilustres da antiguidade para firmar a teoria, ou seja, usam argumento de autoridade.
Acredito, realmente, que figuras célebres, tais como Leonardo da Vinci ou Isaac Newton conheciam a lei da atração. Porém, será que apenas a observância de tal lei lhes deu toda a criatividade de que dispunham? Não tiveram de suar a camisa para conseguir nada? Bastou exigir do Universo?
O terceiro ponto explorado é o Self-Made Man. Um tipo de ‘homem que se faz sozinho’. O povo adora ouvir as histórias de pessoas que saíram da miséria total e por seu próprio esforço conquistaram riqueza e glória. Dá aquele gostinho de “se ele pode, eu tambem posso, uai!”.
Incrível é que em nenhum momento se fala em trabalho.
Taí o pulo do gato.
Para que trabalhar? Basta desejar direito.
Aliás, é só esse o seu trabalho.
Segundo o filme, em pouco tempo, se aprender direitinho, pode ser que o carteiro apareça semanalmente com envelopes gordinhos, contendo cheques nominais. E olha que não estou falando de cheques sem fundos!
Falam em colares de diamantes, mansões exuberantes, bicicletas, carros caríssimos, amor perfeito e saúde física. Tudo conquistado através do pensamento voltado ao que realmente se deseja.
Sim, a lei de atração existe e pessoas mais positivas tendem a atrair resultados interessantes em suas vidas. Isso é provado, inclusive, pela ciência. Mas será que apenas este aspecto nos garante tudo o que o filme promete?
O que diz a medicina?
Cada caso é um caso – e deve ser analisado individualmente. Muitas pessoas com câncer terminal, mesmo sendo muito otimistas, não se curam. Será que elas não sabem desejar a própria saúde ou será que o processo atual da doença se deve a uma outra lei, chamada Causa e Efeito?
Eu fumo a vida toda, continuo fumando, mas meu pensamento é condicionado - só me imagino saudável. Isso dará conta do recado?
A ciência diz que não.
E é justo.
Não cuido do meu templo mais sagrado e exijo, do Universo, saúde. Onde há coerência?
Esqueceram de revelar neste filme que não existe apelas uma única lei a nos reger, mas sim algumas leis imutáveis que se complementam.
Aqui nos cabe uma pergunta: Qual será, então, o segredo da felicidade?
O segredo, caro leitor, é amar.
Tenho aprendido que só os que sabem o valor desta palavra é que conseguem mudar o mundo interior, contagiando, assim, o contexto exterior.
Só os que vivenciam este sentimento encontram paz duradoura.
Falo aqui não apenas do amor entre o homem e a mulher ou do amor entre pais e filhos, mas sim do amor ao Criador e à Sua criação.
Do amor desinteressado, do amor em sua maior expressão.
Quando amarmos verdadeiramente, os bens temporais tornar-se-ão secundários.
Nosso objetivo não estará situado apenas no progresso tecnológico, nem mesmo na fortuna ou no conforto da vida moderna. A proposta será, em verdade, converter os benefícios desses recursos para todos, sem exceção.
A meta será valorizar mais o 'ser' do que o 'ter'.
E a vida terá, então, um outro sentido.
“Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência: ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada serei”.
Trecho da carta de Paulo aos coríntios
Escrito por Claudia Gelernter às 13h03
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Selando destinos
"A maior ignorância é a que não sabe e crê saber,
pois dá origem a todos os erros que cometemos com nossa inteligência."
Sócrates
Existe, na sociedade, uma quantidade considerável de peritos vulgares que emitem diagnósticos variados. São os chamados “achólogos”.
Apontam causas e soluções para os mais diversos problemas:
Complicações com o comportamento do menino da vizinha? Só pode ser culpa do pai que bebe. Aquele rapaz rouba a própria tia? Os amigos da escola que ensinaram. O marido da comadre está saindo com a funcionária do mercadinho? Ela que se insinua para todo mundo...
Qualquer “disfunção social” pode ser destrinchada de forma rápida e segura, porém não indolor - afinal, alguém ou algo sempre paga o pato.
Pior é que o culpado (geralmente único e ignorante do julgamento em questão) muitas vezes é o último em importância na gama dos fatores responsáveis pelos fenômenos estudados. Ou melhor, fenômenos fofocados.
Agora, pior que um achólogo destemido, é um profissional descabido.
Isso porque o achólogo tem, em sua defesa, a ignorância dos assuntos científicos.
Numa das minhas aulas de psicologia escolar, tive acesso a um triste laudo feito por uma psicóloga de um colégio de periferia.
Naílton – um menino de família simples, estudante do primeiro ano do ensino fundamental de uma escola pública campineira, estava, segundo a professora, com dificuldades para prestar atenção nas aulas e de realizar certas atividades. Era também muito retraído e ainda por cima chorava à toa. Por todos estes motivos foi encaminhado à sala da psicóloga escolar. Era mês de abril, portanto, inicio do ano letivo.
Chegando lá, após uma conversa inicial (relatada no tal laudo), a profissional da psique aplica no menino um teste psicométrico. No final, avalia as respostas, conta os pontos e sela o destino do menino, com as seguintes palavras:
“Naílton apresenta problemas de aprendizagem porque seu QI é abaixo da média - é uma criança carente e, segundo seus próprios relatos, tem um pai repressor e uma mãe ausente”.
A profissional foi implacável. Com um olhar clínico, avaliou apenas o menino, sem se dar conta de que ele estava inserido num contexto muito maior. Não conversou com os pais, não avaliou melhor a escola, a professora ou os outros alunos. Com a lente focada sob a criança, não se deu conta de que provavelmente aquele comportamento do menino poderia e deveria ser multifatorial.
Isso sem falar que em um teste psicométrico existem perguntas do tipo: “Assinale, dentre as figuras abaixo, qual é o violoncelo”. Santo Deus! Um menino de periferia tem a obrigação de saber a diferença entre um violoncelo, um violino, um violão, uma guitarra e uma viola?
Rosenthal já chamava a atenção para o fato de que “a predição feita por uma pessoa quanto ao comportamento de outra, de algum modo chega a realizar-se”.
Sinceramente, depois de ler aquele laudo, a única coisa que me passou na mente foi: “Oxalá esse menino não absorva tais palavras”.
Milhares de crianças passam por situações parecidas, no Brasil e no mundo.
Inúmeras pessoas entregam suas vidas ao conformismo do “eu não posso”, “eu não consigo” porque em algum momento uma pessoa dessas cruzou o seu caminho e profetizou seu futuro, como uma verdadeira pitonisa em contato direto com os deuses olímpicos.
Claro que, sem me permitir jogar o bebê no ralo, junto com toda a água da banheira, considero, obviamente, que existem profissionais maravilhosos, cujos diagnósticos são precisos e totalmente responsáveis, assim como existem pessoas com patologias instaladas, com comportamentos desviantes, que certamente necessitam de ajuda especial para conseguirem ter uma vida relativamente normal.
O problema está e sempre estará nos diagnósticos inapropriados, emitidos tanto por achólogos comuns como por profissionais incautos.
É preciso muito cuidado para não realizarmos julgamentos irresponsáveis, pelo mundo afora. Inclusive em nossa própria casa, com aqueles que convivemos.
Quando afirmamos que uma criança não consegue aprender, que um homem não terá forças para parar de beber, ou que uma mulher não tem estrutura emocional para constituir uma família, estamos selando destinos.
Porque todo aquele que julga sem propriedade e sabedoria, comete injustiça, e toda injustiça gera sofrimento.
E o outro terá de buscar forças em seu íntimo para desvencilhar-se das algemas que oprimem as atitudes e retirar de seus ombros o peso da profecia que amaldiçoa.
Claudia Gelernter
Escrito por Claudia Gelernter às 18h12
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Feridas ou moscas?
“Se cada um de nós consertar de dentro
o que está desajustado, tudo por fora estará certo”.
André Luiz
Mesmo contrariada, desde moça precisei reconhecer que não tinha nascido com pernas tipo Claudia Raia – lisas e sem manchas.
Vez ou outra, veias salientes teimavam em aparecer.
Tanto que, logo aos 21 anos tive de me submeter a uma cirurgia vascular que acabou rendendo 46 pontos e dez dias de molho, na cama.
Mas como tudo nesta vida tem aspectos positivos, neste caso pude considerar ao menos dois: Poder ler muita coisa durante o tempo de convalescença e, obviamente, me ver livre daquele mapa hidrográfico epidérmico.
Naqueles dias consegui devorar dois livros inteiros. Um deles foi o Médico de Homens e de Almas, da Taylor Caldwell. Maravilhoso.
O outro era um estudo junguiano, baseado na mitologia grega.
Dentre os personagens mitológicos comentados naqueles escritos, existia um arquétipo muito interessante, chamado Quíron.
Chamam-lhe, também, de o Curador Ferido porque sofria de uma ferida incurável, adquirida numa rixa entre Centauros, onde Hércules esteve envolvido. Portanto, ele curava os outros, mas não podia curar-se a si mesmo.
Depois daquela leitura passei a tentar identificar as pessoas que carregavam este “Quiron” interior.
São aqueles indivíduos que apresentam receitas mirabolantes para todos os que estão à sua volta, que trazem na boca palavras poderosas, capazes de fazer diminuir as dores mais dilacerantes, mas que não conseguem curar as chagas que levam na própria alma.
Com o tempo percebi que existe um número considerável de 'Quírons' feridos, perambulando por aí.
Muitos anos atrás, conheci uma pessoa assim. Ela devia estar com uns quarenta anos, naquela época.
Silvia era a ponderação em pessoa.
Sempre paciente, vivia de bem com a vida, apesar da gastrite que a acompanhava, fazia muito tempo.
Certa vez, logo após ter ouvido minhas lamúrias intermináveis, percebi que ela chorava, discretamente.
Até pra chorar a Silvia era educada.
Tanto que demorei pra me dar conta do que estava acontecendo ali.
Depois de algum tempo, passou a explicar o motivo de suas lágrimas. Disse que ao me ouvir reclamando sobre o jeito austero do meu pai, acabou por lembrar-se de seu padrasto e de como tinha sido injusta com ele e com sua mãe, fazendo intrigas e exigindo da genitora o afastamento total do homem que amava.
Contou que em sua mocidade nunca aceitara que sua mãe, apesar de viúva, pudesse casar-se novamente. Tinha medo que seu pai fosse substituído.
E a resignada senhora, apesar do esforço de sua filha para tornar seus dias mais alegres, por muitos anos manteve o mesmo ar entristecido. Morreu sem nunca mais ter visto seu grande amor.
As últimas palavras da minha amiga vinham recheadas de muita emoção.
Como ainda doía aquela ferida!
Apesar do silêncio que se seguiu, como que pedindo o final do assunto, não consegui conter a curiosidade:
“Por que você não o procura, hoje? Poderia ele estar vivo, ainda?”
Limitou-se a balançar a cabeça, em negativa.
Nenhuma palavra.
Levantou-se, me deu um abraço e foi embora.
Ontem, no final da leitura do livro Libertação, de André Luiz, um pequeno trecho me fez repensar estas questões. Gúbio, o orientador de André, comenta que “(...) é melhor curarmos as feridas do que ficarmos espantando as moscas”.
Acho que a Silvia passou boa parte de sua vida espantando moscas.
Quando sua dor de estômago aumentava, os antiácidos entravam em ação.
Porém, o seu antigo comportamento tinha algo do mesmo veneno que atingiu Quíron – não permitia a cicatrização de sua ferida.
Quem sabe, se optasse por rever tais questões, perdoar-se e seguir em frente, de cara limpa...
Quem sabe...
Assim como ela, deparo-me, frequentemente, com muitas outras pessoas que vivem processo parecido. Têm respostas para todos os dramas da humanidade, entretanto acumulam em seus históricos de vida as moscas mais variadas: fobias, neuroses, doenças somatizadas.
Buscam no consultório médico o alívio farmacológico, sem se darem conta de que as feridas continuam lá, atraindo novos insetos.
Feridas morais. Feridas da alma.
Se eu pudesse voltar no tempo, creio que diria algumas coisas para a Silvia.
Ironicamente sou eu quem estou chegando aos quarenta anos e talvez por este motivo hoje em dia os lamentos são mais amenos e as palavras melhor empregadas.
Poderia apenas ler para ela, em voz alta, uma parte do poema de Catulo da Paixão Cearense, chamado "A dor e a Alegria" que diz o seguinte: "A dor é como um relâmpago, assusta a gente no escuro mas alumeia os caminhos".
Só não sei se conseguiria ajuda-la em alguma coisa.
Isso porque também aprendi, com o passar dos anos, uma outra realidade - a de que não basta conhecer as feridas, os defeitos que teimamos em carregar conosco. É preciso, também, querermos verdadeiramente a cura - a transformação redentora.
Ou seja, é preciso maturidade.
E enquanto esta fase não chega, o jeito é ir espantando as moscas.
Claudia Gelernter
Escrito por Claudia Gelernter às 15h45
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Estudando o falatório
“A franqueza não consiste em dizer tudo o que se pensa, mas em pensar tudo o que se diz." Victor Hugo
Existem pessoas que falam muito. Falam dos outros, do tempo, da novela, de si mesmos...
Falam qualquer coisa que vem na cabeça.
Pensando melhor, nem diria que falam o que vem na cabeça, porque entendo como “cabeça” certa parte do nosso corpo, acima do pescoço e abaixo do teto, que contêm, em sua parte interna frontal, um espaço delimitado, estudado por neurofisiologistas, com a função específica do raciocínio lógico.
E, analisando algumas falas, podemos arriscar o palpite que a boca que proferiu tal idéia não deve ter a mínima ligação com o lobo frontal. Parece que a ligação é, apenas, coronariana.
'A boca fala do que está cheio o coração', afirmou Jesus.
Pura verdade.
E isso é empiricamente observável. Quer testar?
Pergunte para um sovina se ele te empresta dinheiro; diga ao orgulhoso que ele é a pessoa mais inteligente que você conhece e que gostaria de homenageá-lo, em público; fale mal de alguém para um maledicente inveterado.
O primeiro muito provavelmente te dirá um ‘não’.
Esse ‘não’ poderá ser implícito - colocado ao meio de palavras adocicadas, tais como: 'Infelizmente estou sem dinheiro neste mês, uma pena, pois gosto tanto de você...’, mas não deixará de ser uma negativa aos teus apelos.
O segundo, acredito eu, responderá um ‘sim’. Ele poderá vir disfarçado de um ‘sim, mas eu nem mereço isso – tem gente melhor que eu...’ ou apenas um ‘sim, obrigado!’, seguido de um abraço apertado e largo sorriso, claro.
No terceiro caso, prepare seus ouvidos. Esta pessoa acabou de receber o combustível necessário para continuar tacando pedras no outro por longo período. E olha que tem fofoqueiros que fazem 13 horas com 1 minuto de comentário. Impressionante o desempenho.
Outro dia parei para escutar o falatório de uma senhorinha, muito baixinha, na fila do banco. Era quinto dia útil e a fila estava longa, repleta de idosos.
Junto dela, com olhar enfadado e braços cruzados, estava uma outra mulher que parecia ser sua filha. Vez ou outra a jovem acompanhante abanava a cabeça, consentindo, para, em seguida erguer os olhos como que a implorar para Deus um milagre.
O milagre do silêncio ou o da eficiência bancária, certamente.
Mas nada acontecia. A velhinha continuava a falar, sem dar trégua.
Reclamou do sol, do pó, da fila, da nora, do genro, do governo, do funcionário do banco, do cachorro e, claro, da falta de dinheiro.
Dava para perceber nitidamente que ela nem se dava conta do quanto estava sendo desagradável. Falava, falava, falava...
Uma verdadeira química oral verborrágica: aquela senhora conseguiu transformar uma coisa chata (a fila do banco) em algo quase insuportável.
Talvez o que falte para estas pessoas é o que costumo chamar de ‘estudo aprofundado do falatório’.
Falam porque estão sob a influência de suas tendências, mas passam a vida sem se darem conta da natureza delas.
Pensar no que se diz é ir fundo. Filosofar sobre as próprias palavras, buscar lá nas entranhas do ser as questões que movem certas respostas, certas atitudes.
É estudar os próprios sentimentos que despertam a vontade e que produzem tantos efeitos - funestos ou construtivos.
Isso me faz lembrar Santo Agostinho, o sábio bispo argeliano:
"E os homens se vão a contemplar os topos das montanhas,
as vastas ondas do mar,
as amplas correntes dos rios,
a imensidão do oceano,
o curso dos astros,
e não pensam em si mesmos..."
Conseguimos fotografar Marte, mas ainda não demos jeito na conturbada relação em família.
Descobrimos os códigos genéticos, mas não descortinamos nossos defeitos.
O exterior nos deslumbra, o interior nos atemoriza.
E continuamos a falar sem pensar.
Palavras ásperas, verbos envenenados, difamação irresponsável – facetas de uma mesma causa.
A psiconeuroimunologia – um novo ramo da medicina - aponta para o problema das mágoas represadas, da inveja, do egoísmo, enfim, de todos os sentimentos negativos como sendo o gatilho para muitas doenças que acometem o ser humano.
Um pouco de reflexão e perceberíamos, invariavelmente, que a falta de interiorização é um exercício prático de burrice.
Vale lembrar que sentimentos negligenciados nunca poderão ser extirpados.
Como botar pra fora de nós algo que nem sabemos que existe?
*
Na entrada de um grande templo, em Delphos, estava escrito: ‘Conhece-te a ti mesmo’.
E para nos conhecermos, nada melhor que uma boa cirurgia emocional, capaz de religar três componentes extremamente importantes de nós mesmos: boca, raciocínio e coração.
Escrito por Claudia Gelernter às 15h41
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Desconfiômetro
"Não há nada que melhor defina uma pessoa do que aquilo que ela faz quando tem toda a liberdade de escolha." William M. Bulger.
Nasci e fui criada na grande São Paulo. E foi lá que aprendi a dirigir automóvel – treinando num jeep verde, ano 72, do meu pai.
Depois passei a conduzir um fusca vermelho. Esse era do meu cunhado.
Nunca mais esqueci do dia em que consegui leva-lo de Santo Amaro até o centro da cidade. Para ser bem sincera, nem sei quem era o mais maluco alí – se eu ou ele – pois naquela época eu contava apenas 16 anos de idade.
O bom é que chegamos inteiros e, de quebra, ganhei muita experiência.
Difícil deve ter sido para quem cruzou o meu caminho...
Hoje recordo aquelas aventuras e, de certa forma, são elas que me acalmam, quando estou transitando nas ruas da cidade.
Tento desculpar o outro, pensando que poderia ser eu.
No início a tarefa é hercúlea, mas depois que vira hábito a gente passa a rir das barbeiragens dos outros. Isso porque barbeiragens são, na maioria das vezes, ações não intencionais por parte dos motoristas.
Quem nunca pegou à frente, numa pista única, sem visibilidade, um velhinho usando chapéu? Esses são os mais cuidadosos. Tão cuidadosos que nem andam. No máximo 40 km/h. E aí, quando estamos com aquele compromisso para acontecer dali a 5 minutos, e a distância até ele é de 20 kilômetros, não precisamos ser aptos aos cálculos da física newtoniana para percebermos que nem com reza brava conseguiremos chegar a tempo. É preciso muita paciência e disciplina mental.
Porém o problema maior não é estar numa situação destas. Mesmo porque a idade avançada já é motivo para perdão incondicional ao outro condutor e o mais correto seria sairmos mais cedo, evitando assim o desconforto do atraso.
Ruim mesmo é dar de cara com alguém que estaciona na vaga destinada aos deficientes físicos.
Isso, para mim, é aberração.
Vez ou outra me deparo com pessoas que fazem isso.
Uma total falta de respeito para com aquele que já enfrenta outras tantas dificuldades para se deslocar e conviver em sociedade.
A criatura que faz uma coisa destas não se deu conta dos problemas que rondam a vida de um cadeirante. Só pode ser isso.
Richard Simonetti, escritor e seminarista, costuma comentar que pessoas assim nasceram com o desconfiômetro desligado.
E pelo visto não receberam dos pais as informações necessárias, contendo as básicas regras de convívio e cidadania, mantendo, assim, o tal desconfiômetro no mesmo estado.
Alguns, quando questionados sobre tal atitude, respondem que a sua necessidade era muita e que por este motivo estacionaram ali.
Não conseguem ver nada além do próprio umbigo.
Lamentavelmente, não se trata de um problema isolado, mas de uma tendência geral.
Um número grande de pessoas age desta maneira, no Brasil.
Certo conhecido meu, o Alberto, fazendo uma palestra pela ONG onde participa, falou sobre como é a sua rotina diária. Só de ele contar, senti um enorme cansaço. Para um cadeirante, uma simples ida ao shopping é uma verdadeira maratona, que, além de cansar o físico, muitas vezes dilacera a alma.
Isso porque, além de precisarem do dobro de tempo que uma pessoa normal usa para este propósito - fazendo uma força enorme para sair da cama, vestindo-se, deslocando-se para o banco do carro - ainda enfrentam os olhares cheios de pena das pessoas que cruzam seu caminho, que são como agulhas invisíveis relembrando a todo instante aquilo que, muitas vezes, desejam esquecer.
Agora imagine, por um instante apenas, que você se encontra no lugar dele e que, chegando ao estacionamento do supermercado, encontrou a única vaga que poderia lhe atender preenchida com o carro de um bípede erectus ignorantis. Certamente a sua primeira vontade seria falar bem mal do espertalhão, ou, quem sabe, da mãe dele. A segunda, muito provavelmente, de se mudar para a Suécia.
Por que eu cito a Suécia?
Acontece que rodou pela internet um texto muito interessante, atribuído a um brasileiro que foi residir e trabalhar naquele país.
Conta-nos o rapaz que o fato mais impressionante que lhe aconteceu, logo que chegou nas terras da escandinavia, envolvia justamente a questão da boa educação nos estacionamentos.
Ao ser levado por um colega de trabalho até a empresa onde ia começar suas atividades (empresa com cerca de 2000 funcionários), constatou que o condutor estacionou o carro muito distante da porta de entrada, apesar das tantas vagas vazias existentes - todas bem mais próximas. Nos primeiro e segundo dias ele não teve coragem de perguntar o porquê daquela atitude que se repetia. No terceiro encheu o peito de coragem e lançou a pergunta: 'Você tem lugar demarcado para estacionar aqui? Notei que chegamos cedo, o estacionamento vazio e você deixa o carro lá no final. ' E o colega respondeu simples assim: 'É que chegamos cedo, então temos tempo de caminhar - quem chegar mais tarde já vai estar atrasado, melhor que fique mais perto da porta. Você não acha? '
Imagine a cara do brasileiro.
Deve ter ficado pasmo com aquela lição inesperada.
Confesso que eu também fiquei.
Pelo visto os suecos já ligaram o tal desconfiômetro.
Mesmo que não tenha ninguém para lhes cobrar as atitudes corretas, a consciência daquelas pessoas – totalmente desperta – são como bússolas precisas, indicando-lhes o norte das melhores atitudes.
Claudia Gelernter
Escrito por Claudia Gelernter às 16h29
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Epitáfio
"Note que se você tem tempo para reclamar e lamentar sobre algo,
então você tem tempo para fazer alguma coisa referente a isso." Anthony D'Angelo
Outro dia recebi uma ligação da minha irmã que me deixou perturbada.
Mal atendi e ela já foi logo dizendo: “Sonhei que perdi todos os meus dentes. Logo morre alguém da família!”.
Fui criada ao meio de contos e crenças. Dentre elas, a do sonho com a perda da dentição causa impacto em todos, pois, segundo minha avó, os dentes representam pessoas da família e o fato de sonharmos que eles estão caindo só pode ser mau agouro: vai ser doença grave ou então, morte súbita.
Tradição de família é coisa séria. Na minha ninguém sonha com dentes sem acordar desconfiado.
O pior é que ela não parou por aí. Usando voz grave e entonação assustadora, avisou que seria alguém muito chegado nosso e que provavelmente morreria as 16:00 hs de algum dia próximo àquela data, pois em seu ‘momento premonitório’ existia um tal relógio marcando este horário.
Curioso é que nestes sonhos nunca aparece o nome ou a pessoa que terá tal destino.
Esse é o problema. Fatalmente aquele que ouve a trágica narrativa pega a profecia e coloca sob os ombros.
Desliguei o telefone, soltei um suspiro fundo e pensei: “E se fosse eu? E se eu partisse hoje ainda, às 14:00hs? Quais as providências urgentes a serem tomadas?”
Foi então que passei a folhear as páginas da minha vida. Fui percebendo histórias inacabadas, trechos confusos e muito que ser escrito, ainda. Desejei ardentemente ter mais tempo para preencher algumas lacunas e poder concretizar ao menos parte dos grandes objetivos: fazer meu mestrado, lecionar, encaminhar o filho ainda pequeno, construir uma creche...
A cada novo pensamento, um susto. “Puxa! Como não tinha percebido isso, antes? Por que não falei com ela? Por que deixei de dar aquele telefonema? E aquela minha amiga ofendida? Onde estará? Preciso lhe pedir perdão!”
Ao meio daquela revolução mental eis que me surge uma outra pergunta, menos dolorida, mais prática e porque não dizer, mais engraçada...
“O que eu gostaria que escrevessem na minha lápide? O que pediria para falarem no último discurso, em minha homenagem?”
A princípio desejei que as palavras fossem de saudade e tristeza pela separação. Mas logo rejeitei. Não seria nada original.
Bem neste instante recordei as palavras do compositor Sérgio Britto, na música Epitáfio: “Eu devia ter amado mais, ter chorado mais, ter visto o sol nascer. Eu devia ter arriscado mais e até errado mais (...) queria ter aceitado as pessoas como elas são; cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração”.
O compositor estava falando do que deveria estar escrito em sua lápide.
Mas será que eu deveria descrever lamentos sobre o que não fiz? E o que foi bom? E aquilo que a gente realmente realiza? Isso não conta?
Daí imaginei algo mais ou menos assim:
“Aqui jaz uma pessoa comum. Alguém que nasceu com uma programação interessante, fez muita coisa errada, acertou tantas outras e que finalmente parte para o outro lado com um saldo positivo no banco da vida: muitos amigos, familiares e alegrias na conta corrente do coração.”
Estando ali, o que eu deixei de fazer já era. Só numa outra oportunidade. E vai saber quando será...
O jeito é melhorar a qualidade da vida no agora, para então melhorar o momento da morte.
Mas surge uma outra questão: Por que será que dificilmente fazemos estas reflexões? Por que não nos preparamos para a morte, sendo que esta é a única certeza na vida?
Humberto de Campos comenta no seu texto ‘treino para a morte’ que é fácil nos prepararmos para uma viagem à Ásia. Basta que estudemos os costumes e as vestimentas daquele povo e já saberemos o que levar na mala. Porém, a preparação para o outro mundo não é assim tão simples. Isso porque as religiões do mundo, que deveriam nos dar algumas explicações mais claras sobre a espiritualidade, acabam nos assustando com as possibilidades terríveis do além-túmulo.
Sim, todas as possibilidades são terríveis. Isso porque, segundo algumas crenças, se eu pequei pertinho do momento da partida – por exemplo, no dia D, às 15:45hs, segundo as previsões do sonho odontológico da minha irmã – e não tive tempo para resgatar o débito, pedir perdão ou até mesmo de me arrepender pelo feito, Belzebu muito provavelmente estará me aguardando, com todo o tempo do mundo, para juntar-me à turma dos desatentos pecadores incandescentes. A outra possibilidade seria também complicada: Minutos antes de minha morte aceito Jesus, faço caridade e eis que adentro os reinos celestiais, cheio de anjos, arcanjos e serafins seresteiros, cantarolando os hinos de louvor a Deus, em eterna contemplação. Um tédio.
Não me imagino sem trabalho. Uma eternidade sem trabalhar, só aurindo os ares do paraíso, deve ser como viajar para uma ilha maravilhosa e perceber que depois de seis meses a única alegria verdadeira seria a de poder voltar para casa, retomar a rotina e ser útil ao mundo.
São explicações contraditórias. Deus seria sádic
Escrito por Claudia Gelernter às 13h33
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Escutatória
"A arte de ouvir é, também, a ciência de ajudar." Joanna de Ângelis
Dona Zuleika era a dona da cantina da escola onde fiz meu primeiro grau. Todas as manhãs ela preparava o mais cheiroso sanduiche de mortadela quente da região. E eu, com minhas poucas moedas, ficava sempre indecisa entre o lanche com pão francês ou drops da marca ‘banda’ sabor morango.
Não foram poucas as vezes em que saía de lá triste por ter sempre de optar entre as duas coisas mais importantes para mim, até aquele momento: a comida que matava a fome ou o doce que me enchia de alegria.
Ainda lembro de uma manhã quente, bem no início do mês de novembro (época em que as provas estão vindo às pencas e a gente nem sabe se lê primeiro sobre história do Brasil ou se resolve problemas de matemática) em que Dona Zuleika não teve pressa. Ela que sempre estava aflita em saber o pedido dos alunos, em entregar o troco e passar para o próximo; naquela manhã estava diferente. Olhou para mim e arriscou perguntar porque eu sempre escolhia entre o lanche e as balas, sem nunca levar a ambos.
O mundo a minha volta parou. Ninguém, até alí, tinha se preocupado se eu tinha vontade de ambas as coisas, de uma só vez. Nem a minha melhor amiga de classe – a Claudinha. Mas Dona Zuleika quis saber. E seus olhos opacos, denunciando a idade avançada, me olharam bem no fundo. Foi a primeira vez que reparei realmente naquela senhora. Ela poderia ser minha avó, e ainda assim estava sempre lá, trabalhando, correndo com os lanches e ouvindo os gritos dos moleques mal educados.
Me vieram poucas palavras, então apenas disse: “Não tenho como pagar os dois”.
A bondosa senhora saiu de trás do balcão, abriu a pequena portinha ao lado da parede descascada e veio ao meu encontro.
“Vamos conversar”, falou.
Mas não teve conversa. Apenas eu falei. E ela escutou, calada.
Contei das dificuldades do meu pai desempregado e da minha mãe costureira de bairro. Falei no número grande de irmãos e sobrinhos que moravam comigo e de quanto era sofrido para conseguirem manter a casa, o alimento e todos os gastos...
Mas acho que ela nunca soube que na verdade aquilo tudo que eu contava não me doía. Não sentia pena de mim porque morava em casa simples ou porque a única sandália que eu tinha para ir à escola era remendada com linhas de soltar pipa. Não. Eu só não gostava era do fato de que minha mãe não conseguia me dar alguns centavos a mais para a tão sonhada bala da cantina da Dona Zuleika.
Depois que falei da minha dificuldade, fiquei esperando uma resposta dela. Não veio nada. Ela só passou a mão no meu cabelo e ficou me olhando, com os olhos lúcidos.
Passaram-se uns instantes, Dona Zuleika se levantou, abanou uma das mãos me chamando para acompanhá-la, e entrou novamente pela mesma portinha, ao lado da tal parede.
Pegou dois drops, com sabores diferentes e me entregou. Depois, quase no momento em que eu já estava me virando para ir embora, a serena mulher falou que todas as manhãs eu poderia pegar um lanche de mortadela quente, sem pagar nada por isso.
Mas não cheguei a pegar nenhum alimento sem pagar.
Logo depois daquele episódio algo deve ter acontecido em casa, porque as moedas vieram em maior quantidade.
Dona Zuleika também nunca me perguntou porque eu não aceitei a oferta dos lanches.
Só depois de muitos anos descobri que, na verdade, aquela senhora era uma especialista na arte de ouvir.
Vez ou outra via a mesma situação acontecendo: ela saindo da pequena cantina, sentando com alguma criança no banco de madeira, em frente ao grande páteo. E era sempre a mesma coisa – a criança falava e ela ouvia. Então ambos seguiam para a lanchonete e ela entregava algo nas pequenas mãos ansiosas....
As pessoas não costumavam ouvir as crianças. Ou ainda pouco ouvem...
Mas ela era diferente.
Hoje pela manhã lí um belíssimo texto de Rubem Alves que me fez recordar de dona Zuleika. Eis um pequeno trecho: “Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular”.
Realmente.
Duvido que alguém se matricule neste curso. Escutar o outro exige algo que vai muito além da técnica – exige desprendimento.
E Dona Zuleika tinha isso. Ela tinha o dom da escutatória. Foi por este motivo que nunca mais a esqueci.
Claudia Gelernter
Escrito por Claudia Gelernter às 17h38
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Filé Mignon ou Coxão duro?
Contratempos são como facas, que nos servem ou nos cortam,
conforme as pegamos pelo cabo ou pela lâmina." -- James Russell Lowell
Costumo dizer que a vida pode ser comparada a uma grande frigideira, cheia de óleo quente, acondicionada sobre o fogo.
A panela é o mundo - pronto para receber os ingredientes necessários para o prato principal.
O óleo, aquecido pelas chamas, são os problemas, as dores, as desilusões – comuns a todos os que nascem neste planeta chamado Terra.
Afinal, me responda francamente: - Não tem dias em que nos sentimos como sendo “fritos” em azeite fervendo? Pois é.
Bem por este motivo é que também comparo pessoas a pedaços de carne, prontos para serem passados na tal frigideira da vida. Isso porque não temos como escapar deste processo difícil. Se não pularmos no óleo quente dos dramas humanos nunca conseguiremos estar realmente prontos para um viver com sabedoria, com a maturidade necessária. E por falar em carnes, vale lembrar que diferentes pedaços do boi recebem nomes específicos:
Na parte superior temos aquela ‘corcunda’ que costumamos chamar de cupim; na parte central superior temos a capa de filé; lá na traseira temos o lagarto, e por aí vai...
Assim como existe uma nomenclatura para cada pedaço, segundo as suas características, entre os seres humanos percebo que existem as pessoas mignon e as pessoas coxão duro.
Isso mesmo.
Você já fritou um pedaço de coxão duro no óleo quente?
Tente.
A carne fica tão dura, tão 'esturricada' que nem a faca consegue cortá-la com eficácia. Dá tanto trabalho para ser recortada que a mão dói, a faca escapa, o garfo escorrega....isso sem comentar que precisamos perder um bom tempo para conseguir mastigar um pequenino pedaço. O maxilar termina dolorido e ainda poderemos engasgar, cuspindo-a de volta, no prato.
Um mico.
Já o mignon é tenro - poucos instantes de fritura e já está todo se derretendo...
Pessoa mignon é aquela que, quando sob os efeitos das dificuldades e dores da existência, torna-se macia, interessante e totalmente aproveitável.
É a que todos convidam para as festas, pois seu humor é contagiante, seu papo é produtivo, seu sorriso é verdadeiro.
Todos desejam passar os últimos anos de suas vidas com uma pessoa assim – alguém que entenda o ser humano mais profundamente, que se delicia com as pequenas coisas e que valoriza muito mais o ser do que o ter.
Já a pessoa coxão duro enrijece, endurece e é difícil de digerir, porque as dores geraram revoltas e reclames. Está sempre na defensiva.
Passa pela vida frigideira e de lá sai pior do que quando entrou: os problemas foram vistos como fatalidades – como montanhas intransponíveis. Culpam o mundo, como se ele fosse o grande algoz, enquanto que a pessoa mignon acredita que é nele que encontra a melhor das ferramentas para o seu crescimento interior.
Pessoa mignon se derrete pelas crianças, pelos velhos, pelos necessitados. Sua sensibilidade vai muito além de suas próprias necessidades, pois sente uma alegria imensa em ajudar, em ouvir, em acolher.
Já a criatura coxão duro acha tudo um tédio. Crianças são um saco e só servem para dar trabalho; velhos são gagás e nada produtivos; pessoas carentes são vagabundas, etc.
Uma é positiva e cheia de sabor.
A outra possui nervos duros e implacáveis.
A frigideira da vida está pronta para receber todos os tipos de alimentos. Duros ou moles; nutritivos ou venenosos.
Ela cumpre com o seu papel, doando-nos as possibilidades de nos aprimorarmos, de evoluirmos para algo realmente bom.
A nós, diferentemente dos alimentos, cabe uma decisão.
Como queremos ser? Interessantes, como um tenro pedaço de filé mignon, ou intragáveis, como um pedaço de coxão duro?
Claudia Gelernter

Escrito por Claudia Gelernter às 08h20
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